de Dennis Downing

A icônica música de Simon and Garfunkel “The Sound of Silence” começa assim:

Olá escuridão, minha velha amiga
Eu vim falar com você de novo
Porque uma visão suavemente rastejando
Deixou suas sementes enquanto eu dormia
E a visão que foi plantada em meu cérebro
Ainda resta
Dentro do som do silêncio.

Muitas vítimas de abuso sexual, na sua grande maioria crianças e adolescentes, podem se identificar com essa letra solitária. Pelo menos eu posso. A escuridão, que vira sua “velha amiga”, de tanto você conviver com ela. Escuridão da noite quando sozinho na sua cama os pensamentos voltam, escuridão das manchas que sente na sua alma pelo que foi feito com você.

Escuridão, essa que vira a única testemunha com quem você consegue falar, pois ninguém vai entender ou compreender o horror, a vergonha, o ódio por si mesmo que o abuso consegue enterrar como sementes implantadas por aquele ser rastejante que entrou no seu cérebro para cultivar seu jardim perverso. “E a visão que foi plantada em meu cérebro ainda resta”. E resta. E resta. E resta.

E o som, o único som é do silêncio ensurdecedor de não conseguir falar, dividir, desenterrar de alguma forma da sua alma o impronunciável e indescritível dor daquilo. Sozinho. Sozinha. Pelas aterrorizantes ameaças que fizeram a você. Ou a esperteza nefasta de induzi-lo(a) a acreditar que você foi “parceiro(a)”, que você na verdade quis aquilo, que você teve prazer naquilo. De uma forma ou outra o diabo de camisa e calça e nome familiar fecha dentro de você o horror da sua participação no incompreensível e nojenta “parceria”, e faz com que você acredite que ninguém vai acreditar em você.

E se, como criança ou adolescente, você tentou falar com alguém, um parente ou autoridade, e passou pelo humilhante processo de ser chamado de mentiroso(a), porque era inacreditável que professor fulano, ou tio sicrano, ou doutor beltrano faria uma coisa dessas! Aí, é que você vai sofrer duplamente, pois além do próprio abuso terá que enfrentar os que vão acreditar em você, e passar a vê-lo como “usado”.

Ou acreditar na mentira do autor de que foi você que quis. E ainda terão os outros que vão agora lhe encarar como inventor(a) de histórias e mentiroso(a). E você ainda sabe que, se uma mulher souber que você foi abusado por homens quando adolescente ela pode desconfiar que terá uma atração por eles como adulto. O que pode nunca acontecer, porque todos nós passamos pelas mesmas experiências de forma diferente.

Se você, lendo essas palavras agora meu querido, minha querida foi muito nova quando lhe aconteceu eu sinto tanto. Não sei se na adolescência ou na infância é pior. Cheguei à conclusão depois de tantas pessoas desabafarem comigo (como se houvesse alguma sociedade secreta que a gente sabe quem tem a mancha), entendo que depende de cada um.

Tem criança que consegue se livrar e passar adiante e tem adolescente que não. Como a imagem dos dois cachorros. Molhados na mesma lama pela qual passaram. Para o cachorro grande, mal chegou ao joelho. Para o pequeno, chegou até o pescoço. Todos nós passamos pelas mesmas experiências de forma diferente.

O autor Max Lucado falou de forma tocante da experiência dele com abuso quando tinha 12 anos no texto “A Estação Mais Tempestuosa da Minha Vida”. Pela graça de Deus, apesar do trauma que sofreu, ele parece ter conseguido se livrar desse trauma por meio de um ato piedoso de tomar a ceia sozinho em casa e se sentir aceito de novo por Jesus. E não duvido da sensação que ele descreve. Não sabemos se ele fez algum tipo de terapia depois, nem como foi.

Mas todos nós passamos pelas mesmas experiências de forma diferente. O que vai levantar uma alma da lama não vai ser nem de longe o suficiente para outra. A sexualidade é uma das áreas mais íntimas e vulneráveis do ser humano. Atitudes e ações que atingem esta área podem deixar marcas profundas e difíceis de superar. Quando atinge uma criança, uma alma ainda em desenvolvimento, e portanto o mais vulnerável possível, mesmo com o melhor da terapia e apoio psicossocial, o dano pode deixar marcas a durar uma vida inteira.

Por causa do abuso sexual por uma pessoa que devia acolher e cuidar de você, a confiança em vínculos afetivos é seriamente abalada. A menina agora como mulher talvez venha a confiar na sua terapeuta, mas como será que ela confiará nos homens? Claro que nem todos são abusadores, mas como é que ela vai saber se o homem com quem ela acabou de se apaixonar não seja abusador, ou que ele vai ser fiel a ela? Ou se, como o tio em que ela pensou que tinha um segundo pai, ele não vai abusar da filha dela?

Como é que o menino que foi abusado vai passar a confiar em outros homens quando precisa tomar banho com seus colegas no banheiro masculino do ginásio esportivo onde vai jogar bola depois do trabalho? Ou que o chefe dele não vai tornar como o professor da escola, e abusar da sua posição para exigir um “favor”. Ou finalmente um dia encontrando o amor da vida dele, como é que ela vai reagir se ele contar o que sofreu, e que foi com homens? Será que ela não vai desconfiar também? Será que o amor dela vai realmente durar para sempre? Ou vai um dia, como todos os outros, virar as costas e ir embora? Porque parece que a marca, a mancha, sempre contamina, sempre estraga.

E a narrativa infernal daquele que quer roubar, matar e destruir as nossas almas passa a reinar em nossas mentes. Ninguém no final das contas merece a nossa confiança. Eventualmente encontramos em cada um motivos de desconfiar. Interpretamos palavras e atitudes, até silêncios como indícios e provas. Talvez não que seja um abusador, mas que vai nos abandonar, não vai continuar a se importar, a cuidar, a amar.

E assim a narrativa do diabo nos empurra cada vez mais na direção que ele quer, de nos isolar. Nós mesmos desconfiamos, nós nos afastamos, nós cortamos, nós sabotamos os vínculos afetivos por mais seguros que sejam. O nosso inimigo nem precisa fazer mais nada. É a própria gente que faz. Que plano malévolo. Nós mesmos enfiamos a lâmina em nossa alma e executamos a facada fatal que nos deixará mais uma vez só. Sozinho(a). Isolado(a) Onde aquela voz sempre disse que a gente ficaria. Abandonado(a). Sempre.

Quando as pessoas que tinham o dever de lhe proteger e acolher, quando foi justamente estas pessoas que abusaram da sua ingenuidade e confiança, como é que você passa a confiar depois em qualquer outro vínculo afetivo? É um processo sim, terapia ajuda, sim. Mas todos nós passamos pelas mesmas experiências de forma diferente. Para alguns só afeta até os joelhos. Para outros a lama passa do pescoço, da boca, do nariz e olhos. Para alguns é difícil mesmo se livrar das memórias, superar as cicatrizes, aprender a confiar.

Por isso o esforço que estamos fazendo durante este mês para conscientizar e estimular a ação de todos para buscar e oferecer ajuda a quem vive preso no som do silêncio do trauma de abuso sexual no seu passado. Ou pior, que ainda convive com isso. Há várias dicas no site do Maio Laranja e no Instagram. Por favor, dê uma passada lá e se informe, e depois compartilhe com seus contatos.

Há muitas almas trancadas por trás da porta do silêncio. Almas em corpos de crianças, e almas de crianças em corpos de adultos. Como disse Contardo Calligaris “Numa psicanálise descobre-se que a vida adulta é sempre menos adulta do que parece: Ela é pilotada por restos e rastros da infância.”

Se você desconfia de abuso, se envolve, se informe. Acredite na criança. A maior arma do abusador é o silêncio. Seu maior medo, a denúncia e a descoberta. O abusador geralmente induz ou ameaça a criança a ficar em silêncio com ameaças à vida dela ou de outros membros da família, ou de desmenti-la e dizer que foi ela que procurou.

A criança na sua inexperiência e ingenuidade faz o que o abusador quer – fica calada. E sofre sozinha. No silêncio. E o sofrimento dela pode durar anos assim e distorcer e estragar relacionamentos afetivos pelo resto da vida. O desafio quase insuperável de vergonha e terror da criança precisa ser valorizado. Acredite na criança. Valorize o que ela diz. E ajude ela a ter voz.

Se uma criança te contar algo, confie, acredite e ajude ela a encontrar ajuda e amparo. Se não souber o que fazer, disque 100, o canal de denúncias de violações de direitos humanos, inclusive de crianças e adolescentes. O número funciona em todo o território nacional, 24 horas por dia, todos os dias do ano, com discagem gratuita de qualquer terminal telefônico fixo ou móvel (celular). Disque 100. Você pode estar fazendo toda a diferença, não só num momento da vida de uma criança, mas na vida inteira de um ser humano.

Que Deus lhe use e lhe abençoe, e obrigado pelo seu apoio a esta campanha.
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