de Carlos Eduardo Félix

 

 

Hoje é um dia comum.
Uma manhã comum.
Um raiar de sol comum.
Muitos se levantam e vão para seus trabalhos comuns, mas nem tudo é tão comum para todo mundo.

Deixe-me levá-lo a uma cidade ao sudeste de Nazaré chamada Naim, onde o comum passou à distância e o milagre passou por perto.

Jesus sempre foi uma pessoa comum.
Seu nome era comum, pois o nome Jesus era tão popular quanto Antônio ou Francisco nos dias de hoje.

Sua vida era uma vida comum nos fundos de uma carpintaria, e tão pacata que ele poderia tirar uma soneca logo após o almoço.
Jesus tinha amigos comuns, pais comuns, morava em uma casa comum em um mundo totalmente comum.

Até que um dia Jesus foi convidado para um casamento comum.
Lá, como não era comum, faltou vinho.

“Eles não têm mais vinho” disse Maria, a mãe de Jesus.

Então Jesus, das coisas comuns, fez o que não era comum às pessoas fazerem. Ele virou água em vinho.

Incomum? Sem dúvida.
Mas não é isso que Jesus adora fazer?
Não foi isso que ele fez na cidade de Naim?

Enquanto uma mulher contemplava o rosto pálido e frio de seu filho em um esquife, ela chorava.
Ela tinha amado aquele filho com todo amor que uma pessoa pode ter por outra.

Durante nove meses ela o carregou em seu ventre, seguro, aquecido e amado.
Durante meses ela agüentou dores nas costas, noites mal dormidas, enjoou da sua comida favorita, deixou de usar seus vestidos mais charmosos.
Durante meses ela viu a mudança em seu corpo e em sua vida.

Mas ela amou cada minuto. Ela amou cada chute em sua barriga, e depois cada fralda trocada, cada noite de sono perdido e tardes explicando a tarefa escolar.
Ela amou o seu filho com todas as suas qualidades e defeitos.
Ela o amou e nada mais.
Porque o que ela tinha era ele e nada mais.

Agora aquele sorriso acabou, aquele brilho no olhar se extinguiu, aquela voz suave silenciou, porque aquele filho morreu.
Durante todo esse tempo ela o acompanhou em sua vida e agora ela ia acompanhá-lo em sua morte.

Lucas, que escreveu sobre aquele momento diz “…Estava saindo o enterro do filho único de uma viúva…”.

O que estava sendo carregado para o sepulcro naquele dia era muito mais do que seu filho, era seu protetor, seu provedor e sua linhagem.
Era tudo que ela tinha, e tudo que ela podia esperar que teria nesta vida.

Para quem observava a passagem daquele cortejo funeral, era um dia comum, um momento comum, um funeral comum.
Mas não ia ficar assim por muito tempo.

Lucas conta “Ao vê-la, o Senhor se compadeceu dela e disse: ‘Não chore’.”

Você diria isso para uma mãe que acabara de perder seu único filho?
– “Não chore.”

Você ousaria dizer estas palavras para um pai que acabara de perder sua família em um acidente?
Você teria coragem de ir a um cemitério e dizer às pessoas para não chorarem?
Creio que não.
E nem eu.

Mas, Jesus virou para o corpo daquele filho e disse “Jovem, eu lhe digo, levante-se!” O filho morto sentou-se e começou a conversar, e Jesus o entregou à sua mãe.

Espere aí!
Morto não se senta e nem tampouco conversa com alguém.

Comum?
Pode apostar que não.

O incomum?
Ele se chama “Jesus”.

Temos um Jesus comum, mas que se faz incomum para chamar a sua atenção.
Não foi isso que ele fez no casamento na Galiléia?
Não foi isso que ele fez com a viúva de Naim?
E com Lázaro, com o cego de Jericó, com a mulher adúltera, com Pedro andando sobre as águas e o mais incomum de todas as coisas – no Calvário quando o único filho de Deus foi morto por sua própria criação.

Comum?
Não.
Jesus não foi comum quando se tratava de amor.

O amor dele é fora deste mundo.
É além da eternidade.
É mais poderoso que a própria morte.

E o que fazer quando o carpinteiro aparecer nas coisas que parecem comuns?
Sorria.
Pois, é em lugares assim, que um carpinteiro chamado Jesus gosta de aparecer.

 

 

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